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Sonhos inacabados

Regressei à idade dos "porquês" porque não consigo entender...
Tenho 60 anos e acho que estou a entrar em decadência... A idade não perdoa mas há coisas que eu própria, não consigo perdoar. Estou desiludida com a vida e sei que a vida está desiludida comigo. Falhei... Fui deixando sonhos para trás, fui escolhendo as coisas à medida que os problemas iam aparecendo, e mal ou bem, iam-se resolvendo, até perceber que hoje, não me sinto realizada com a vida que tenho.
O meu marido acha que eu já não preciso da atenção, da preocupação dele, deixa-me sozinha vezes sem conta. Acha que eu fico sempre bem porque lhe transpareço isso, mas custa-me imenso fingir que está tudo bem quando não está, quando sinto que não está...
Reencontrei o meu namorado da juventude e não gostou que isso tivesse acontecido. Porquê? Há tanta coisa que recordei e que me voltei a rir. Há tanta parte dele que guarda as minhas gargalhadas nos olhos, beijos que ficam na memória e eu acho que o melhor de tudo é rir. 
Rir de tudo o que o foi porque amanhã a velhice pode nos levar ao colapso.
Deixei de conversar com as paredes porque acho que a leitura de jornais e revistas me entendem mais do que uma sala vazia com um computador a fazer barulho a arrancar ou a teclar. É isso que os jovens chamam. Deixei os amigos fazerem farinha com aquilo que acham que eu faço de errado e passei a importar-me com as flores do meu jardim. São poucas mas rego-as todos os dias.
Rego-as pelo carinho que ainda nutro por elas, apesar de saber que nem todas são bonitas o ano inteiro. Sei perfeitamente que gosto mais de umas do que de outras. Tal e qual como foi quando era jovem, gostava mais de um tipo de homens do que de outros. Gabarolas, convencidos, nunca me interessaram, não tinham nada que me chamasse a atenção. Preferi sempre os atenciosos, os preocupados, os homens com objetivos de vida. Os que não andavam cá por acaso, gostavam de ser felizes, sentirem-se realizados profissionalmente numa área que gostassem. Esses sim, eram o meu homem de eleição e para os que eu fui olhando. Olhei muitas vezes, mas vi muito pouco em grande parte delas.
Fui desistindo ao longo dos anos de procurar o chamado "amor da minha vida". O que importa quando nem com o que fazes, estás feliz? 
Fui secretária na empresa do senhor com o qual me casei anos mais tarde. Não era nada daquilo que eu pretendia mas fui adiando tantos sonhos que tinham tempo para serem realizados que, acabei por nunca os realizar nada do que planeara.
Cá estou eu, com o homem que me contratou para a sua empresa, com frieza porque não tinha tantas competências como ele procurava mas contratou-me. 
Apaixonei-me rapidamente pela delicadeza com que tratava todos os seus clientes. Não preenchia todos os requisitos do meu homem de eleição mas foi se adaptando.
Casei com o pensamento que nada é para sempre e que a qualquer momento poderiam haver alterações de vida, tanto profissionais: como ter que se mudar para o estrangeiro; como também a nível mais sentimental. Tanto tempo que passávamos juntos. Empresa, casa, férias, empresa, casa, férias e assim sucessivamente. A probabilidade de encontrar uma mulher que o pudesse cativar mais do que eu cativei numa entrevista de emprego, era elevadíssima. 
Nunca encarei o casamento como uma prisão. Somos livres, vivemos vidas diferentes, apesar de ter trabalhado com ele. Nunca o impedi de aceitar nenhuma proposta do estrangeiro. Tenho a leve sensação que recusou por querer ficar ao meu lado, mas há oportunidades que surgem uma vez e depois... depois acaba. 
Quando acabarem as oportunidades, certifiquem-se que aceitaram as melhores e as que mais gostavam. Porque vai chegar uma altura em que não escolhes o que gostas, escolhes o que os outros não gostaram para eles. 
Faz tudo o que estiver ao teu alcance.
Profissionalmente
Sentimentalmente
Psicologicamente
Fisicamente
E principalmente
Fá-lo
Completamente feliz com o que estás a fazer.
Arrependimentos aos 60 anos são como queimar lenha molhada, provavelmente não vai arder. Provavelmente não me valerá de nada. 
Reencontrem quem precisam de reencontrar para preencher alguns dos desejos ainda possíveis.
Façam o que gostam.
Estejam com quem gostam. E se não estiverem... Não mintam acerca disso.
Foi o que eu fiz.

Três meses depois de encontrar o meu amor de juventude, pedi o divórcio. Por ele. Por saber que não o faria feliz por mais tempo, e curiosamente ele já não me fazia feliz há bastante tempo.
Regressei aos pequenos almoços sozinha que em todos eles compunha a mesa sozinha. Algumas vezes enganei-me nos lugares da mesa, na quantidade de comida que teria de fazer, nas pessoas presentes. Por um lado queria que estivesse, mas por outro sabia que está mais feliz não estando com alguém que não lhe acrescentava nada.
Não procurei ninguém de novo porque preciso de voltar a gostar de mim primeiro para poder, novamente, gostar de alguém. É como se tivesse de aprender a andar. 
Pequenos passos para encontrar o equilíbrio certo e só depois ganhas confiança para correr.
Fui me familiarizando outra vez com as eternidades passageiras. Nada é eterno, tudo é passageiro.
E ainda, nem tudo é passageiro nem eterno.

Pois continuo a preferi os atenciosos, os preocupados... 

Contínuo com os mesmos sonhos que há uns anos. Fiz poucos por eles, fiz pouco por mim e sei que já vou tarde para os concretizar mas pelo menos espero. Espero por mais sonhos possíveis. 

Espero encontrar-te. Ou reencontrar-te. A ti. 

Até ao fim.

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